Encerrar o regime 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso) poderia elevar os custos das empresas brasileiras em até R$ 267,2 bilhões por ano, segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria). O valor corresponde a 7% da massa salarial e considera a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais.
O impacto varia conforme a estratégia adotada pelas empresas: ampliar o quadro de funcionários — alternativa mais cara — ou pagar horas extras. No cenário de horas extras, a despesa adicional chegaria a R$ 178,2 bilhões anuais. Na indústria, o acréscimo percentual seria de 11,1%, com alta de custos entre R$ 87,8 bilhões (com novas contratações) e R$ 58,5 bilhões (com horas extras).
Uma PEC que reduz a jornada foi aprovada em comissão do Senado no fim do ano passado. A proposta prevê diminuição gradual: de 44 para 40 horas no ano seguinte à promulgação e, depois, cortes de uma hora por ano até atingir 36 horas semanais.
Os segmentos mais pressionados seriam a construção e as micro e pequenas indústrias. No cenário de reposição por horas extras, empresas com até nove empregados teriam aumento de R$ 6,8 bilhões (13%) nos gastos com pessoal; nas companhias com 250 ou mais funcionários, a alta seria de R$ 41,3 bilhões (9,8%). Com novas contratações, o impacto anual seria de R$ 4,5 bilhões (8,7%) nas menores e de R$ 27,5 bilhões (6,6%) nas maiores. Segundo a CNI, negócios de menor porte têm menos espaço para ampliar equipes, o que os torna mais vulneráveis.
Entre as atividades industriais, a construção lidera a pressão de custos, com avanço estimado de 13,2% (R$ 19,4 bilhões), seguida pela indústria de transformação (11,6%), pelos serviços industriais de utilidade pública (5,7%) e pela indústria extrativa (4,7%).
Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, mudanças na jornada exigem análise técnica e prudência, pois podem afetar competitividade, emprego formal e crescimento econômico, com impactos distintos por porte de empresa e região. Segundo ele, os dados indicam maior probabilidade de queda da produção e elevação do custo unitário do trabalho, o que pressionaria preços e reduziria a competitividade das empresas brasileiras.
Em nota técnica, a entidade afirma que, qualquer que seja a estratégia para manter as horas trabalhadas, além do gasto direto com mão de obra haverá alta nos preços de insumos e nos contratos de serviços usados na produção. A CNI também prevê efeito negativo na produtividade, especialmente diante da escassez de mão de obra: o tempo para recrutar, treinar e integrar novos funcionários reduziria o volume produzido, aumentaria o custo por trabalhador e derrubaria a produtividade. A combinação desses fatores, diz a nota, tende a piorar a competitividade no mercado interno e externo, com risco de retração da atividade e fechamento de empresas.
Um estudo do Ipea estimou alta de 7,84% nos custos empresariais com o fim do 6×1 e a adoção de 40 horas semanais. Para o instituto, os efeitos seriam absorvidos pela economia, como ocorreu com ganhos reais do salário mínimo e com a redução da jornada de 48 para 44 horas na Constituição de 1988.
Pesquisadores ouvidos pela Folha avaliam que pode haver impacto sobre o PIB e fechamento de vagas. Outros estudos, porém, sugerem efeitos limitados, em linha com a experiência de 1988. Enquanto isso, empresários articulam uma reação no Congresso para tentar barrar o avanço da PEC.
Setores com maiores impactos percentuais estimados: – Indústria da construção: +8,8% a +13,2% – Comércio: +8,8% a +12,7% – Indústria de transformação: +7,7% a +11,6% – Agropecuária: +7,7% a +13,5%
