As tarifas globais de 10% impostas pelo governo Donald Trump na sexta-feira (20) incidem sobre cerca de 25% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, segundo estimativa divulgada pelo Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio) nesta terça (24).
Esses itens somam aproximadamente US$ 9,3 bilhões (R$ 47,9 bilhões). Ao mesmo tempo, outros US$ 17,5 bilhões (R$ 90 bilhões) — o equivalente a 46% do comércio bilateral — passam a não estar sujeitos a qualquer sobretaxa adicional, de acordo com a pasta.
O ministério ressalta que o cálculo desconsidera eventuais sobreposições com as tarifas da Seção 232, as quais não foram afetadas pela decisão da Suprema Corte que considerou ilegais as chamadas tarifas recíprocas.
Ainda segundo o Mdic, as tarifas setoriais da Seção 232 continuam incidindo sobre cerca de 29% das exportações brasileiras aos EUA — como nos casos de aço e alumínio. Essa legislação permite que o presidente americano investigue se determinadas importações ameaçam a segurança nacional.
Em nota, o Mdic afirma que o novo regime tarifário dos EUA tende a ampliar a competitividade de setores brasileiros como máquinas e equipamentos, calçados, móveis, madeiras e produtos químicos, agora submetidos à alíquota global única de 10%.
Ao mesmo tempo, a partir das mudanças anunciadas na sexta-feira, aeronaves passam a entrar nos EUA com alíquota zero, enquanto pescados, mel, tabaco e café solúvel caem de 50% para 10%.
“Os dados são estimativos, uma vez que os códigos tarifários foram divulgados na nomenclatura HTS (Harmonized Tariff Schedule) e posteriormente consolidados ao nível de seis dígitos do Sistema Harmonizado, o que pode gerar variações nos valores apurados”, pontua a pasta.
“Além disso, a aplicação das tarifas nos Estados Unidos envolve critérios adicionais para determinados produtos, como destinação específica ou uso final, que podem influenciar a alíquota efetivamente incidente.”
RETROSPECTIVA DAS TARIFAS
Eleito em 2024, o presidente Donald Trump prometeu durante a campanha impor tarifas de importação a parceiros comerciais para, segundo ele, corrigir déficits e combater o que considerava tratamento injusto contra os EUA.
Em abril de 2025, no que a administração republicana chamou de “Dia da Libertação”, Trump anunciou uma tarifa básica de 10% e sobretaxas adicionais de até 40%, com a alíquota final variando conforme o tratamento dado, na visão do presidente, aos Estados Unidos.
Inicialmente, o Brasil foi enquadrado na alíquota de 10%. Mais adiante, o governo aplicou uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, alegando uma “caça às bruxas” contra o presidente Jair Bolsonaro — medida que alcançou cerca de 43% das exportações do país aos EUA.
Na mesma ocasião, Washington impôs sanções a autoridades brasileiras, incluindo ministros e magistrados do STF (Supremo Tribunal Federal).
O governo brasileiro reagiu criticando as tarifas e as sanções e buscou negociar com os EUA. Seguiram-se tratativas diplomáticas, pressão do setor privado e, em uma reviravolta, um elogio de Trump a Lula na Assembleia-Geral da ONU.
Em novembro, o governo Trump retirou as taxas de uma ampla gama de produtos brasileiros, entre eles carne bovina, suco de laranja, café em pó e aeronaves. Permaneceram taxados, porém, segmentos como máquinas e equipamentos, armas, madeira e pescados, entre outros.
Na última sexta-feira (20), a Suprema Corte considerou ilegais as “tarifas recíprocas” anunciadas em abril de 2025. Com isso, os produtos brasileiros ainda afetados por essas cobranças ficam livres do imposto e tendem a recuperar espaço no mercado americano.
A decisão não alcançou, contudo, tarifas setoriais globais aplicadas simultaneamente ao Brasil e a outros países, como as incidências sobre aço, alumínio, veículos e autopeças.
Os Estados Unidos oficializaram a cobrança de uma tarifa adicional de 10% a partir desta terça para todos os produtos não cobertos por isenções. O aviso da CBP (Alfândega e Proteção de Fronteiras) menciona o índice divulgado por Trump logo após a decisão da Suprema Corte, com base em uma lei de 1977. No dia seguinte, o presidente anunciou a elevação para 15%, mas essa alteração não consta no comunicado da CBP.
Em coletiva, o vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin (PSB), que coordenou a resposta brasileira ao tarifaço, disse que a tarifa não retira a competitividade dos produtos nacionais e pode até trazer ganhos ao Brasil.
