Gestores de investimentos divergem sobre onde a Selic deve encerrar 2026. Enquanto o consenso do boletim Focus aponta 12% ao ano em dezembro, já circulam projeções de um nível mais baixo.
Bruno Serra, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e hoje gestor no Itaú Asset Management, disse ver a taxa básica fechando o ano em 11% ao ano, no máximo. A avaliação, feita em evento do BTG Pactual nesta quarta (25), foi apoiada por Marco Freire, da Kinea, e por Christiano Chadad, sócio e gestor do BTG Volt.
Serra sustenta a tese com uma sequência de indicadores: a inflação deve ficar perto de 3% até outubro e terminar o ano em cerca de 3,5%, com a principal incerteza vindo da condução da política fiscal. O PIB estaria próximo do potencial, em torno de 2%, puxado por agronegócio e mineração (com destaque para Vale e Petrobras). Excluídos esses dois setores — foco do último relatório de política monetária do BC —, a parte da economia com potencial inflacionário cresce a 1,5% e desacelera. O mercado de trabalho perde fôlego; os salários seguem firmes, mas tendem a ceder à medida que a inflação converge à meta. “E o juro ainda está em 15%”, observou.
Com esse pano de fundo — inflação corrente perto de 3% e atividade arrefecendo — Serra acredita que o BC iniciará um ciclo de cortes mais rápido que o previsto pelo mercado. Ele lembra que o juro neutro do BC é estimado em 8,5% e o do mercado em 9,5%, e acrescenta uma folga de 1,5 ponto para projetar a Selic em 11% ou menos no fim do ano, com discussão de patamar ainda inferior no início de 2027. Juro neutro é a taxa real, descontada a inflação, que mantém a economia em equilíbrio, sem pressionar preços nem travar o crescimento.
Para chegar lá, ele projeta reduções mais agressivas que o consenso: corte de 0,50 ponto percentual em maio, seguido por dois de 0,75 ponto a partir de junho. “O risco é a Selic terminar em 9%, não em 12%”, disse.
Chadad concorda com a ideia de aceleração dos cortes, sobretudo antes do período eleitoral. Segundo ele, cortar durante o processo de votação não é hábito no Brasil. Ele ressalta que as projeções partem da manutenção do atual regime fiscal até o fim do ano; caso o governo amplie gastos, o cenário muda e, nos próximos anos, a combinação de Executivo gastando muito e BC perseguindo a meta pode deixar de se sustentar. O próximo governo, mesmo sob Lula, “terá muita dificuldade em manter esse nível de gasto”, afirmou, apontando risco de choque com a dinâmica da dívida e eventual retorno do debate sobre dominância fiscal.
Freire, da Kinea, considera a Selic a 15% uma “excrescência” — e 12% também seria. Ele compara com emergentes “medianos”: no México, com inflação de 4%, o BC discute juro perto de 6,5%; na África do Sul, com inflação a 3%, a taxa roda em torno de 6%. “Falar em Selic a 12% é o dobro”, diz. Embora o Brasil tenha dívida maior do que esses países, ele destaca a robustez institucional: “12% ainda parece muito fora do lugar”.
O Focus desta semana trouxe a primeira redução em mais de quatro meses na projeção de Selic terminal, de 12,25% para 12,13%.
Apesar das apostas do mercado, o BC mantém cautela. Em 11 de fevereiro, o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, afirmou que a palavra de ordem é “calibragem”. O Comitê de Política Monetária seguirá dependente dos dados e não pretende oferecer sinalizações adicionais além das já divulgadas. Ele negou que o uso recente de “serenidade” e “parcimônia” indique mudança de estratégia: “Não há nenhuma alteração na função de reação”. Para o restante do ano, qualquer sinalização pode ser frustrada e causar mais dano do que ajudar, dado o quadro de incerteza geopolítica, eventuais mudanças na política econômica dos EUA e as eleições no Brasil.
