A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia e à Coreia do Sul não resultou em um único grande anúncio, mas trouxe um balanço positivo na frente diplomática, apesar de avanços e recuos na área comercial.
Em Nova Délhi e em Seul, Lula apresentou novos investimentos e parcerias no setor privado e firmou acordos na área de saúde. Reforçou a relação com o primeiro-ministro Narendra Modi e elevou o patamar do diálogo com o presidente sul-coreano, Lee Jae-Myung.
No agronegócio, porém, não houve fechamentos de acordos, um dos focos da agenda asiática. Com uma ampla comitiva que incluiu o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, o governo buscou reduzir as tarifas aplicadas pela Índia ao frango brasileiro — atualmente de 100% para cortes e 30% para a ave inteira —, o que inviabiliza a competitividade no país. Mesmo com a sinalização brasileira de abrir o mercado para romã, demanda indiana, as negociações não avançaram.
Na Coreia do Sul, houve progresso nas conversas para abertura do mercado à carne bovina do Brasil, mas ainda sem resultados concretos. O governo sul-coreano indicou que fará auditorias em frigoríficos brasileiros para checar o atendimento a exigências sanitárias e de qualidade, sem definir prazos para as inspeções nem para a conclusão do processo.
Nos dois países, foram assinados instrumentos relacionados a minerais críticos e terras raras, que expressam intenção de cooperação, mas não estipulam cronogramas, valores ou obrigações.
Eventos organizados pela Apex reuniram grande participação empresarial: 450 executivos em Seul e cerca de 900 em Nova Délhi. Na capital indiana, após encontro de Lula com CEOs — entre eles Natarajan Chandrasekaran, do Tata Group —, a Apex anunciou investimentos de R$ 10 bilhões no curto prazo, sem especificar o período. Em reuniões com Samsung, LG e Hyundai, não houve anúncios de novos aportes, embora tenha sido manifestado interesse em ampliar investimentos no Brasil.
O Mercosul esteve na pauta em ambos os destinos: a Índia sinalizou disposição de aprofundar o escopo do acordo com o bloco, e a Coreia do Sul afirmou que retomará as negociações comerciais interrompidas em 2021. Lula declarou que o acordo Mercosul–Coreia pode ser concluído ainda neste ano. O movimento acompanha a tendência global de reduzir dependências concentradas em poucos atores, como Estados Unidos e China.
Na Índia, a visita de Estado a convite de Modi e a participação em uma cúpula de inteligência artificial reforçaram a aproximação entre os países. Na Coreia do Sul, o tom foi de cordialidade, com Lee destacando origens comuns na classe trabalhadora. Lula observou que, desde sua passagem por Seul em 2005, nenhum presidente brasileiro havia realizado visita de Estado, algo que considera desproporcional à relevância do vínculo bilateral.
No retorno ao Brasil, Lula fez uma escala surpresa em Abu Dhabi para uma reunião de trabalho com o xeique Mohammed bin Zayed Al Nahyan. Segundo o Planalto, discutiram cooperação em comércio e investimentos, manifestaram o desejo de acelerar o acordo entre os Emirados Árabes Unidos e o Mercosul e defenderam a paz no Oriente Médio. Não houve anúncios comerciais após o encontro.
