Credcesta, associado ao Master, alvo de queixas por descontos não honrados e ligações persistentes

Credcesta, associado ao Master, alvo de queixas por descontos não honrados e ligações persistentes

Problemas com cartão Credcesta: descontos não autorizados e dificuldades de atendimento atingem servidores e aposentados

Dificuldades para acessar contratos, obter atendimento e, principalmente, questionamentos sobre descontos indevidos no salário ou na aposentadoria estão entre as principais queixas de quem contratou o cartão Credcesta. Trata-se de um tipo de crédito consignado inicialmente oferecido a funcionários públicos municipais e estaduais, que depois passou a ser utilizado pelo Banco Master em operações com aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Professores e aposentados de diferentes estados relataram à Folha que, após contratarem os empréstimos, identificaram descontos extras em seus contracheques que não reconhecem. Entre esses valores estão referências a cartões de crédito que afirmam nunca ter usado, seguros ou refinanciamentos que não teriam autorizado.

Os relatos incluem ainda ligações insistentes de oferecimento, com promessas de redução de juros ou liberação de um “troco”, sem que o funcionamento do refinanciamento fosse devidamente explicado.

O Credcesta operava com o chamado “Saque Fácil”: o cliente recebia um valor em dinheiro, a ser pago com parcelas descontadas diretamente da folha de pagamento ou do benefício, dentro da margem consignável. Junto com esse saque, era emitido um cartão de crédito. Se utilizado, o valor mínimo da fatura era descontado em folha, enquanto o restante deveria ser pago via boleto.

A operação foi estruturada em parceria com o Banco Master e, posteriormente, parte dela passou a ser abrigada também no Banco Pleno – que foi liquidado pelo Banco Central em 18 de fevereiro. O SAC do Credcesta informou à reportagem que não está mais realizando novos empréstimos.

Procurado por e-mail através da assessoria do extinto Banco Pleno e também pelo canal do processo de liquidação, o Credcesta não respondeu aos questionamentos da reportagem até a publicação deste texto.

Relatos de quem foi afetado

  • Lívia Badaró, 40, professora (RJ): Contratou um empréstimo em 2025 e passou a ter quatro descontos em folha, sendo que dois deles (de R$ 56,62 e R$ 506,08) não reconhece. Após reclamação no portal consumidor.gov, o Master afirmou que o desconto maior referia-se a um refinanciamento autorizado por ela via documentos e assinatura eletrônica – versão que Lívia contesta.
  • Ana Paula Maciel, 44, professora (BA): Contratou dois empréstimos em 2018 e nunca conseguiu acessar os contratos. Após a liquidação do Master, foi abordada pelo Banco Pleno via WhatsApp com oferta de novo crédito, sendo informada de que o banco não tinha responsabilidade ou informações sobre os contratos antigos.
  • Tânia Alba, 59, professora aposentada (PR): Recebeu uma fatura de um serviço de saúde que alega não ter contratado. Após pedir o cancelamento, teve um desconto de R$ 89 vinculado ao Credcesta em seu contracheque. Só conseguiu resolver a situação após registrar queixa no Reclame Aqui.
  • Professora de Curitiba (que preferiu não se identificar): Teve, sem autorização, o desconto simultâneo da parcela do empréstimo e do valor mínimo da fatura do cartão de crédito. Conseguiu suspender os descontos ao procurar o RH da prefeitura.

Ação da Prefeitura de Curitiba

No dia 9 de fevereiro, a Secretaria Municipal de Gestão de Pessoal (SMGP) de Curitiba anunciou a suspensão de todos os descontos do cartão Credcesta de servidores ativos. A decisão foi tomada devido à falta de informações detalhadas sobre os contratos de cerca de 5.000 servidores, aposentados e pensionistas, e após manifestações sobre cobranças em duplicidade e falhas no atendimento.

Queixas se estendem a aposentados do INSS

Páginas do Reclame Aqui referentes ao Master e ao Credcesta também acumulam reclamações semelhantes de aposentados e pensionistas do INSS, que relatam descontos não reconhecidos e dificuldade para obter cópias de contratos.

Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirmou que a instituição “sempre atuou em estrita observância às normas e aos procedimentos estabelecidos pelo INSS para a concessão de crédito consignado”.

Para o advogado previdenciário Rômulo Saraiva, colunista da Folha, a combinação de vendas por telefone, informações repassadas de forma acelerada e contratos à distância dificulta a compreensão total do que está sendo contratado, favorecendo práticas abusivas.

Procurado, o INSS afirmou que, desde a deflagração da Operação Sem Desconto, vem reexaminando seus fluxos internos de fiscalização. O instituto destacou que sua principal preocupação é “garantir que o desconto decorre de um ato de vontade inequívoco de seu beneficiário”.

O que fazer em caso de descontos indevidos?

  1. Contate a instituição: Procure primeiro o banco, a financeira ou a associação responsável pela cobrança para solicitar o cancelamento do desconto e a devolução dos valores.
  2. Registre reclamação oficial: Se não resolver, faça uma denúncia no Portal do Consumidor (consumidor.gov.br), plataforma da Senacon. Segundo o órgão, as queixas sobre o Credcesta no portal aumentaram significativamente em 2025.
  3. Beneficiários do INSS: Podem também procurar a Ouvidoria do INSS pela Central 135, ou pelo site/aplicativo Meu INSS.

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