Startup francesa de energia nuclear vê sonho ruir em seis anos

Startup francesa de energia nuclear vê sonho ruir em seis anos

A Queda de uma Estrela da Energia Nuclear: A História da Startup Francesa Naarea

Em dezembro de 2023, o fundador da startup nuclear francesa Naarea reuniu funcionários e investidores em Paris para um jantar de gala a rigor, com dança, onde revelou um grande modelo do minirreator que prometia revolucionar o setor energético.

O evento coroou um ano eufórico para a empresa, que havia captado 10 milhões de euros em subsídios públicos, e encapsulava a energia de seu CEO, Jean-Luc Alexandre, segundo relatos de conhecidos e participantes.

Então, veio a crise de caixa e um colapso brutal. A empresa de seis anos, que prometera começar a implantar reatores no início da próxima década, está agora à beira da liquidação judicial.

A queda da Naarea (cuja sigla em inglês significa “Energia Nuclear Abundante, Acessível e Versátil para Todos”) ocorre enquanto mais de cem empreendimentos nucleares ao redor do mundo correm para concretizar projetos de pequenos reatores.

No entanto, os desafios técnicos e o financiamento massivo necessário para sustentar anos sem receita estão se tornando cada vez mais evidentes.

“Eles não são os únicos vendendo um sonho. Isso é normal porque são startups”, comentou Nicolas Goldberg, especialista em energia da Colombus Consulting.

“As pessoas parecem ter esquecido que não é todo dia que se inventa um novo reator nuclear. Há uma razão pela qual o mundo passou a fabricar reatores apenas a partir de alguns projetos validados décadas atrás”

Ex-executivo da Alstom e da Suez, Alexandre afirma que o Estado francês, prejudicado pela instabilidade política, demorou a renovar seu apoio após o subsídio inicial de 2023. Esse atraso, em sua avaliação, dificultou novas captações privadas, pois os investidores buscavam uma “prova clara de engajamento” do governo. A Naarea levantou 90 milhões de euros, mas estimava precisar de 2 bilhões para concluir o projeto.

Ex-funcionários, investidores e autoridades francesas acreditam que a empresa enfrentava outros problemas, com crescente ceticismo sobre seu processo planejado de reciclagem de combustível e o cronograma ambicioso de desenvolvimento.

Como muitos concorrentes globais, a Naarea reviveu uma ideia antiga: criar reatores compactos, replicáveis e acessíveis para fornecer energia limpa a fábricas e alimentar o boom global de data centers.

Experimentos anteriores com microrreatores foram abandonados nos anos 1970 em favor de usinas maiores, inclusive na França, que possui a maior frota da Europa, com 57 usinas.

Os desenvolvedores argumentam que a tecnologia evoluiu e que os Pequenos Reatores Modulares (SMRs) fazem sentido ambiental, especialmente modelos como o da Naarea, projetados para usar combustível nuclear usado.

A empresa explorava o uso de combustível líquido de sal fundido, uma tecnologia com vantagens de segurança promissoras, mas que ainda requer pesquisa extensiva sobre questões como corrosão.

A Naarea começou a buscar patentes em 2021, obtendo uma na França, com pedidos pendentes em outros países, como EUA. Em 2023, com cerca de 300 funcionários e um modelo digital pronto, a empresa ainda estava em estágio preliminar de discussões com o regulador de segurança nuclear francês.

No ano seguinte, o governo francês, que havia prometido 1 bilhão de euros em apoio ao setor de SMRs, ficou em silêncio. Não houve um segundo desembolso. Em junho, a convocação de eleições antecipadas pelo presidente Emmanuel Macron mergulhou o país em uma crise política prolongada.

Nos bastidores, um relatório encomendado pelo governo avaliou 12 startups nucleares e identificou vários obstáculos para a Naarea, incluindo questões sobre seu cronograma e sua fonte de plutônio.

Cerca de 12 toneladas de plutônio são separadas anualmente na usina de La Hague, na França, mas a maior parte já é comprometida com a estatal EDF. A Naarea poderia necessitar dessa quantidade para um único reator.

Startups nucleares nos EUA, como a Oklo, apoiada por Sam Altman, enfrentam desafios similares, embora o presidente Donald Trump tenha prometido disponibilizar resíduos nucleares de ogivas da Guerra Fria.

As tentativas de Alexandre de captar mais recursos falharam. A empresa entrou com pedido de recuperação judicial em setembro de 2025. Em dezembro, um salvador pareceu surgir: o grupo Eneris, de tratamento de resíduos, fez uma oferta de 500 mil euros para comprar a Naarea.

Porém, em janeiro, o plano ruiu. A Eneris retirou a oferta, alegando posteriormente ter descoberto “problemas nas frentes jurídica, trabalhista e tecnológica que haviam sido ocultados”, concluindo que a startup estava “em um impasse tecnológico”.

Alexandre rejeitou as críticas, afirmando que auditores analisaram a tecnologia durante o processo e que a empresa buscava acessar estoques de resíduos nucleares fora da França para obter plutônio. Ele defendeu suas contratações iniciais como necessárias para o desenvolvimento acelerado e a festa de Natal como um evento motivacional, destacando cortes de custos e quadro de funcionários em 2024.

“Meu erro foi confiar demais no Estado francês”, desabafou Alexandre.

O Ministério das Finanças e da Energia da França não respondeu a pedidos de comentário. Críticos do governo argumentam que uma due diligence mais rigorosa no setor deveria ter sido feita desde o início.

Para Goldberg, os problemas do setor vão além do financiamento. “Há muitos desafios para os SMRs globalmente. Hoje quase não existem projetos validados, e esse é o maior desafio de todos.”


Publicado

em

por

Tags:

Descubra mais sobre brasil365online.com.br

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading